Ainda Estou Aqui

I’m Still Here – English version

Ainda Estou Aqui entrou timidamente no meu radar. Acompanhar as produções brasileiras vivendo no exterior tem seus desafios. O burburinho sobre o filme veio crescendo, principalmente nas redes sociais, até que vieram as indicações e a então vitória no Globo de Ouro. 

E a Fernanda Torres hein? Meus pais me perguntaram. Até colegas e amigos aqui do exterior queriam saber quem era essa atriz. Eu não tinha muito o que dizer. “A filha da Fernanda Montenegro, que fez Os Normais.” 

– E o filme, viu?
– Ainda não.

Claro que, como cineasta conheço Central do Brasil e Walter Salles. A história do “Oscar roubado”, que coloco entre aspas simplesmente por não ter como opinar sobre a premiação de 1999.

Salles, cuja contribuição ao cinema Brasileiro vai além de diretor e Central do Brasil, ocupa minha memória como um diretor dono de um olhar profundo para histórias particulares. Histórias essas transpassadas pelo caos e violência do mundo. O perigo de simplesmente viver. Mea culpa não ter me aprofundado na sua filmografia e não ter assistido a obras como Terra Estrangeira (1995) e Diários de Motocicleta (2004). 

A indicação ao Oscar me animou, especialmente pela oportunidade de ver o filme no cinema. Garanti meu ingresso e confesso ter ficado feliz ao ver que as sessões estavam esgotando, ainda que em uma pequena sala de um cinema de rua em Vancouver. 

Ainda Estou Aqui é baseado na obra homônima de Marcelo Rubens Paiva. O ano é 1971, Rio de Janeiro, durante a ditadura militar. A privilegiada família Paiva vive em zona nobre da capital carioca. Boa comida, amigos influentes e uma vida que eu diria ser o Brazilian Dream of life dos anos 70. Eunice Paiva (Fernanda Torres), em seu mergulho nas águas do Leblon. Seus cinco filhos com o ex-deputado Rubens Paiva (Selton Melo) curtem as areias cariocas. O brilho do Rio, o calor e o conforto das cores quentes da cinematografia. 

Em casa, Rubens equilibra seu tempo com o escritório de engenharia e a família. Um pai que traz o sustento da casa e está presente, seja na queda do dente da filha mais nova, seja em uma partida de pebolim/totó com o filho (Marcelo). Tudo seria perfeito, não fossem os helicópteros e caminhões militares, os atentados e sequestros da luta armada. Do outro lado da rua, ou no frame da televisão, esses conflitos parecem estar distantes, mas não o suficiente. A filha mais velha é enviada ao exterior para evitar o envolvimento com movimentos estudantis. Eunice vê Rubens recebendo ligações e encomendas misteriosas. Ela sabe que há algo acontecendo. 

A vida de Eunice vira de cabeça para baixo (um eufemismo) quando Rubens é levado para ser interrogado (Preso). Eunice é interrogada sistematicamente e brutalmente por agentes do DOI-CODI. Seu marido é um conspirador. E sem maiores explicações ela é liberada. Marcelo, Veroca, Nalu, Eliana e Babiu nunca mais viram o pai. Eunice, guerreira (me faltam palavras) ao perceber que Rubens está morto (a cena do cachorro) faz o impossível, prover e criar os cinco filhos. As cores quentes, o brilho do Rio desaparecem. 

Ainda Estou Aqui não é um filme sobre a ditadura militar. Não é um filme sobre regimes A ou B, sobre esquerda e direita. Aliás, reduzir a obra a isso diz muito sobre a capacidade humana de fechar os olhos, distorcer a realidade, relativizar atrocidades, abusos e absurdos quando se tem como objetivo a perpetuação de um projeto de poder com o qual, ridiculamente, alguém defende com garras e dentes. Cólera ao ver uns pintando o filme como fake news esquerdista e outros falando como ele nos faz lembrar que o fascismo está à espreita. Estúpidos, pequenos, limitados. 

Muito menos é um filme sobre fazer sua parte na tal defesa da democracia. Não há romance na ideia de que os fins justificam os meios (seja em repassar cartas, seja em cometer atos de terrorismo, seja em ações em defesa do Estado). O preço é caro e essa não é a discussão. Muito menos é sobre um boa época para uns, ruim para outros. 

Sobre o que é então? Violência. Não importa de onde ela vem, crime, Estado, A ou B. Não importa se é em 1960 ou em 2025. A falência moral da sociedade. Sobre o destroçar de uma família. A interrupção de uma vida, o marido e pai que nunca mais voltará, uma infância roubada. Um amadurecimento forçado. A voz, a imagem, o abraço e o beijo que se tornam memória. É sobre nunca mais ser o que era antes. 

A violência está à espreita. É oportunista, atravessa e consome o calor das famílias brasileiras e do mundo. Danos irreparáveis.

Eunice Paiva? Não é um símbolo nem de resistência nem da resistência. Ela é sim resiliente. Ela se reinventa e batalha. Recolhe os cacos e constrói algo novo. Sim, ela sorri na adversidade, mas é um sorriso que não é o mesmo de antes. O olhar entrega o sofrimento que ninguém deveria passar.

Eu vi o olhar de Eunice, de Fernanda Torres. Eu ouvi “Está tudo bem”. Eu contemplei o abismo de um pai que nunca mais voltaria. E não foi durante a ditadura. Ainda que pela graça de Deus o desfecho da minha história tenha sido diferente (por isso não ouso dizer que sei o que essa família passou), eu tive um encontro com a violência. Eu me identifico, Marcelo. 

Uma vítima não supera a violência. O ato perdura. Aprende-se a conviver e no melhor dos casos, se vence a paralisia, o choque. Assim é com os Paivas. Na velhice, mesmo ou não ainda estando aqui, com Alzheimer, Eunice (como Fernanda Montenegro) tem a esperança de trazer fechamento, uma resolução. Não há certificado de óbito, nem mesmo comissão da verdade que repare o que aconteceu. Apenas um ato divino é capaz de cicatrizar tão insistente ferida. Assim é comigo e com tantos outros. 

A potência do texto de Marcelo. Cartas (sonhos, desejos e memória), família, traumas e morte, rimas de Walter Salles. O filme que ressoa. 

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