O novo filme da A24, dirigido por Alex Garland e Ray Mendoza, parte de uma premissa simples. Warfare é um longa baseado nos relatos de veteranos de guerra sobre uma missão específica no Iraque. Dentro do gênero de filmes de guerra, nada de novo. Então, o que faz esse filme se destacar?
Dos mesmos criadores do “sem CGI e tudo feito na câmera”, apresento agora o “na vida real não tem trilha sonora”. “Isso é o mais próximo de um combate real que se pode chegar.” Os estúdios ainda estão tentando convencer as pessoas a saírem de casa e irem ao cinema. Enfim, momento de desabafo feito — a experiência de Ray Mendoza como Navy SEAL e sua abordagem ultra-realista realmente traz algo interessante. Não diria inovador, porque quando falamos de filmes de guerra, não existe exatamente “novidade”.
Deixando de lado minha irritação com o marketing, aqui vão algumas palavras sobre o filme.
Sobre Filmes de Guerra
Existe uma linha divisória entre filmes de guerra e filmes de ação. Filmes de guerra têm ação (tiros, explosões)? Sim, mas nem sempre. Filmes ambientados em uma guerra são necessariamente filmes de guerra? Não. Podem ser apenas filmes de ação.
Então o que eu chamo de filmes de guerra?
A questão com filmes de ação é que, geralmente, você se empolga. Basta pensar em Missão Impossível. Já filmes de guerra usam a violência para chocar, provocar e fazer algum tipo de declaração — geralmente anti-guerra. Tenho visto isso em várias produções durante minha jornada para montar uma linha do tempo concisa da Primeira e Segunda Guerra Mundial com filmes.
O problema é que nós, cineastas, temos uma tendência a transformar nossos protagonistas em heróis. E numa sociedade que precisa de heróis, o uso da violência da guerra como crítica acaba sendo ofuscado. Só lembrar de Tropa de Elite, um filme pensado como anti-violência que acabou se tornou um hino.
Warfare tenta, e consegue, fugir dessa armadilha com duas decisões inteligentes:
A fachada do “sem desenvolvimento de personagem”.
O que quero dizer com isso? É um filme de 1h30. Não tem tempo pra voltar à infância dos personagens ou à uma carta de uma pessoa amada. A guerra não se importa com isso, e funciona. Pra quê tentar, e falhar, desenvolver 18 personagens, só pra audiência “se importar”? E ainda assim, uma cena de 3 minutos com o hit Call on Me do Eric Prydz é o suficiente pra mostrar a idade, a camaradagem e a ingenuidade. Isso basta. Você preenche o resto.
Sem arquétipos de filme de guerra.
Todo mundo já viu isso. O recruta (apesar de que há um novo no grupo), o oficial maluco, o comandante experiente, o incompetente etc. Mas aqui eles são profissionais, se comunicam diretamente. Eles têm uma missão e foram treinados pra isso.

O hiper-realismo
A decisão do Mendoza de não usar trilha sonora é compreensível — vários filmes optam por isso nas cenas de ação. Se a ideia é fazer tudo parecer real, faz sentido. Mas preciso dizer: há um uso muito inteligente da fonia de radio rádio e sons extra-campo que preenchem essa lacuna.
Quando tudo explode, o caos toma conta. Alex Garland é habilidoso em retratar caos na tela, já vimos isso em Guerra Civil (2024) e funciona muito bem aqui. O pelotão dos Navy SEALs está encurralado numa casa. O tempo está correndo, e eles precisam escapar. A luz está lá fora, a escuridão é onde eles estão.
O uso inteligente de cinematografia em espaços apertados torna impossível pra audiência não se sentir dentro da ação. Você fica tão chocado quanto os soldados ao verem seus irmãos mortos ou gravemente feridos. Chocado, sim, mas ainda sem tempo pra lamentar. As expressões de D’Pharaoh Woon-A-Tai, dizem tudo.
Sem Poder
A necessidade de escapar e salvar os companheiros leva ao pedido de reforço e retirada. O combate em terra nivela tudo: Navy SEALs dos EUA e combatentes da resistência iraquiana — ou como quiserem chamar (o filme chama de “homens com idade militar”). Não existe “superioridade militar” quando as balas estão voando e a morte está ao seu lado.
O sobrevoo do apoio aéreo (demonstração de força) é uma metáfora de como nem o exército mais avançado do mundo resolve o problema do combate em solo. Quando um homem está matando outro homem, não existe poder. E quando os reforços chegam, os gritos clichés de força e encorajamento militar são abafados. Não importam.
No fim, eles escapam. Mas a guerra nunca escapará deles. A pergunta do porquê eles estavam lá vai ecoar pra sempre. Uma cena marcante mostra o personagem do Will Poulter apenas pedindo desculpas pelo que está acontecendo. Em retirada, o som dos tiros vai diminuindo. Os Navy SEALs estão a salvo, mas suas vidas jamais serão as mesmas. E a vida volta ao normal na cidade. Os agressores foram repelidos, estão em retirada. Irônico.
Warfare, com todo o aparato cinematográfico, ou não, consegue contar uma história poderosa sem cair no lugar comum. É um filme de guerra que equilibra realismo chocante com um andamento frenético. Um filme de guerra, com deve ser, faz você se importar com os milhares de soldados enviados para batalhas (mesmo você não os conhecendo) e se perguntar se vale ou não a pena. Mas, talvez, seja um filme que exige muito do público de hoje em dia.
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