Avatar: Fogo e Cinzas chega aos cinemas, trazendo um desfecho para o mais recente retorno de James Cameron a Pandora. O arco narrativo iniciado em O Caminho da Água apresenta uma empolgante conclusão em uma produção deslumbrante e repleta de ação.
Assim como fiz três anos atrás, saí do cinema com muitos pensamentos, tentando entender por que esse filme se conectou comigo de forma tão profunda. Por que ele é mais do que um feito tecnológico, por que a sua narrativa é maior do que as várias explosões em tela?
Nas próximas linhas, vou discutir alguns dos temas com os quais mais me conectei. Olhando além da visão de mundo panteísta de James Cameron, compartilho algumas reflexões, não necessariamente em ordem cronológica. Aletda de spoilers!
Luto
Fogo e Cinzas começa imediatamente após os eventos de O Caminho da Água. O segundo filme terminou com um epílogo profundo e poderoso: uma cerimônia fúnebre que revelou a beleza da memória e a força encontrada no luto coletivo. Assisti a O Caminho da Água nos meses seguintes à morte da minha avó, e me conectar com a história foi inevitável. Eu diria até que Avatar 2 fez parte do meu processo de cura, já que o lema da família Sully ressoou profundamente comigo: família é nossa fortaleza, e Sullys ficam juntos
Em Fogo e Cinzas, enquanto a família lamenta a morte de Neteyam no primeiro ato, vemos que o luto não é um processo linear nem unificado, assim como na vida real. Lo’ak lida com a culpa. Neytiri canaliza sua dor em ódio contra os humanos. Tudo o que resta é sua fé de que o que ocorreu foi vontade de Eywa. Jake se mantém ocupado vasculhando o campo de batalha em busca de armas, evitando o silêncio e a reflexão. Kiri, parece mais em paz; sua profunda conexão com Eywa e sua fé acalmam seu coração.
Como sugerem Tonowari e Ronal, Jake e Neytiri precisam atravessar o luto, romper com a negação e a raiva. A cura não é opcional; ela é essencial para que a família permaneça unida. O luto não tratado pode se transformar em algo muito mais perigoso: perda de fé, ruptura de identidade, uma quebra interior que consome tudo ao redor, exatamente como vemos personificado no Povo das Cinzas.

Fé
O Povo das Cinzas. Um clã Na’vi violento e assustador que contrasta radicalmente com tudo o que o público viu até agora sobre os nativos de Pandora. Entre eles, não há paz nem harmonia com Eywa — apenas um ciclo vicioso de destruição. A perda da fé transforma até os mais inocentes e puros, não muito diferente da própria humanidade. Onde estava Eywa quando suas casas foram destruidas? Onde estava Eyway quando Neteyam morreu?
Não é surpresa que Quaritch se sinta em casa entre eles. Sua busca por vingança o cega completamente e, como Jake observa, ele simplesmente não entende o estilo de vida em Pandora.
Varang, a líder do Povo das Cinzas, funciona como um espelho sombrio do que Neytiri pode se tornar. Sua dor e rejeição de tudo o que é humano são projetadas em Spider, o filho de Quaritch. Ainda assim, o lembrete de Jake sobre sua própria humanidade pode atravessar essa dor.

Pertencimento
Spider é, sem dúvida, meu personagem favorito. Ele tem o melhor arco narrativo. Odiado por Neytiri, faz tudo o que pode para pertencer àquele mundo, àquela família. Mas sua vida ainda depende de uma máscara (Cameron, mestre do foreshadowing). Ele nunca será realmente livre; apenas um milagre poderia mudar isso.
A perseguição incessante que separa adultos e adolescentes cria a tempestade perfeita para que esse milagre aconteça. Quando a máscara de Spider falha, ele começa a sufocar no ar tóxico de Pandora. Kiri ora e faz tudo o que pode para salvá-lo. Ele morre, deixando Lo’ak, Kiri e Tuk devastados. Mas o milagre acontece. Spider desperta, respirando o ar de Pandora. Transformado, para sempre.
Vivendo dentro dele agora, em simbiose, está um woodsprite, ou devo dizer, um espírito? Seu antigo eu morreu; ele renasce como um filho de Eywa. O paralelo com o batismo cristão é impossível de ignorar: morte, renascimento e transformação.
Sua liberdade, no entanto, dá início a uma nova perseguição. Sua vida agora está em risco, e talvez o destino de todo o planeta também. Jake e Neytiri discutem o impensável: sacrificar o menino. Em uma cena de tirar o fôlego, claramente inspirada em Abraão e Isaque, Jake simplesmente não consegue fazê-lo, e Neytiri finalmente vê Spider. Eu vejo você!
Ele não é mais apenas uma criança humana. Ele faz parte de uma família maior, aceito como Na’vi. Conectado ao planeta, seu espírito viverá em Eywa para sempre.

Família é nossa fortaleza
O tempo, por si só, não resolve o luto, em grande parte porque é irrealista parar de viver enquanto o tempo faz silenciosamente seu trabalho. Neytiri não teve esse luxo; seu mundo estava desmoronando ao seu redor, e ela foi forçada a agir. Ao aceitar Spider como seu filho, ela dá um passo decisivo em sua jornada. Por meio da fé e da família, ela finalmente começa a se curar.
Em um terceiro ato cataclísmico, os colonizadores retornam, mais uma vez tentando explorar os recursos naturais de Pandora: metal e a Amrita, o líquido que promete vida eterna. A humanidade o deseja, custe o que custar. Ninguém se importa com o meio ambiente. Estão corrompidos.
A ação toma conta da tela: batalhas, explosões e caos por todos os lados. Famílias são devastadas novamente, e o modo de vida Na’vi, o próprio planeta, está em perigo. Em uma tentativa desesperada de buscar ajuda em Eywa, Kiri arrisca tudo ao se conectar à Árvore dos Ancestrais. Ela tenta como antes, mas falha. Quando toda esperança parece perdida, Spider e Tuk, seus irmãos, aparecem. Juntos, finalmente alcançam Eywa e pedem ajuda. Sozinha, ela nunca conseguiria. Família é nossa fortaleza. E Eywa proveu. No seu tempo, mas proveu.

A batalha é vencida. Quaritch, covarde e confuso, salta em um inferno de fogo. Será que ele começou a gostar da sua vida como nativo? Jake, mais uma vez Toruk Makto, une o povo e os conduz à vitória.
Ainda assim, o luto permanece, e muito precisa ser reconstruído. Desta vez, porém, eles sabem que a verdadeira força vem de pertencer a uma família maior do que si mesmo — uma família unida pela fé, pela memória e pela conexão com algo maior do que a própria vida. Uma família eterna.
Em Avatar 3, mesmo com Pandora e a exploração humana ainda presentes, o verdadeiro conflito nasce do coração. À medida que as famílias se ajustam às circunstâncias da vida, o público é levado a refletir sobre a verdadeira fonte de força: fé, amor e comunidade.
Em alguns momentos, o ritmo é acelerado Faltam respiros; a ação nterrompe as cenas mais silenciosas e íntimas, um contraste com O Caminho da Água. Mas isso também reflete a vida: ela raramente desacelera, e muitas vezes somos forçados a seguir em frente. O filme aborda muitos temas, embora alguns conflitos são resolvidos rápidamente, como a culpa de Lo’ak, enquanto outros mal são explorados, o que realmente está acontecendo com Quaritch?
Avatar: Fogo e Cinzas não é perfeito, mas nada é. A história é simples? Talvez, mas ela não deixa de ser impactante. Se este é o fim dessa franquia nos cinemas, é um encerramento satisfatório. Mas eu retornaria feliz a Pandora para continuar acompanhando a jornada da família Sully.
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