Missão: Marte – O fim do maneirismo de Brian de Palma

Brian De Palma pode ser considerado um dos diretores mais influentes do que chamamos de cinema contemporâneo. Sua filmografia revela uma relação ambígua com hollywood, sendo um dos responsáveis pela retomada e força dos blockbusters do cinema americano ao mesmo tempo em que mantém uma postura crítica a lógica industrial.

O diretor, que vinha realizando obras de sucesso como “Os Intocáveis” (1987), “Missão: Impossível” (1996) e “Olhos de Serpente” (1998), estréia o novo milénio com uma produção controversa. “Missão: Marte” (2000) foi um fracasso tanto crítico quanto comercial, entretanto, passados quase 20 anos do lançamento do filme, o ato de revisita-lo traz alguns insights sobre a carreira e estilo do diretor.

Ainda que o suspense fosse o filão mais recorrente em sua filmografia, o cineasta já havia realizado de comédias a filme de guerra, do terror ao filme de gângster, deixando poucos terrenos a serem desbravados, sendo um deles o da ficção científica. Para sua estreia neste universo, De Palma escolheu uma temática bastante em voga na virada do século, a viagem a Marte (…). (RIBEIRO)

O filme se passa no futuro, não tão distante, ano de 2020, quando a primeira missão tripulada enviada a Marte perde, misteriosamente, o contato com o controle da missão. Uma equipe de resgate é montada e enviada ao planeta vermelho na busca por sobreviventes. Entretanto, o que é apenas uma arriscada missão de resgate se transforma em uma reflexão sobre a origem da vida.

O estilo do diretor se faz presente no filme por meio dos cortes associativos e ilusões, como “quando o que acreditamos ser o lançamento de um foguete real se revela apenas como uma queima de fogos de artifício” (RIBEIRO). Também pode-se citar os elegantes planos-sequência e elaborada movimentação da câmera, principalmente nas cenas em gravidade zero. A dilatação do tempo, pela lentidão dos movimentos nas cenas de tensão, construindo um suspense angustiante, e o uso da trilha orquestrada também são exemplos do estilo de De Palma.

Vale evocar aqui a definição do cinema de Brian de Palma como um Cinema Maneirista. Como sugere Tuoto (2017), o termo se refere a um processo de reinvenção, uma releitura dos procedimentos cinematográficos, demasiadamente explorados, por meio da hiper-estilização e da consciência da historiografia do cinema. De Palma se apropria de técnicas, como a movimentação de câmera ou dilatação do tempo de Hitchcock, e as aplicam em prol de sua narrativa, como nos já citados planos-sequência e cenas de suspense.

Entretanto, não é no diretor britânico em que estão as maiores referências de Missão: Marte. O que dizer dos grandes planos da espaçonave vagando pelo espaço, do próprio formato da nave; do caminhar dos astronautas na estrutura circular que simula a gravidade; do traje espacial, em especial o formato do capacete; e o clássico de 1968 de Stanley Kubrick, “2001: Uma odisseia no espaço”

Os capacetes dos astronautas, a esquerda em 2001 e à direita em Missão: Marte.

 

 

 

Não só a fotografia e a arte estabelecem ligações com a obra de Kubrick. Como aponta Leonardo Ribeiro em sua crítica, indicando também uma ligação com “Solaris” (1972) de Tarkovski:

Missão: Marte realmente debate questões metafísicas, tal qual Kubrick e Tarkovsky, e faz citações claras – a misteriosa face que surge no terreno marciano teria uma função similar à do monólito de 2001, por exemplo. (RIBEIRO)

O próprio final do filme é uma referência clara a 2001, ainda que menos abstrato. Trata-se de uma sequência de contato com o extraterrestre onde o protagonista da história, Jim McConnell, vivencia uma transcendência a uma nova concepção sobre a vida e sua origem.

Talvez seja esse final o motivo do “fracasso” do filme. De Palma cria uma fábula, uma mitologia, para explicar a origem da vida, em um contexto em que “ o mundo já caminhava para uma busca cada vez mais intensa pelo realismo, com a fantasia tendendo a perder espaço gradativamente.” (RIBEIRO). As referências do passado já não fazem mais sentido.

Dessa maneira, saindo de uma análise sobre sua execução, o longa aponta para um rompimento na filmografia do diretor, como sugerido por Raul Arthuso, na revista Cinética, no trecho a seguir:

(…)Missão: Marte, por sua vez, também uma viagem em busca de uma “visão total”, livre de um afã pela pertinência, lapidando as imagens por especulação: ao mesmo tempo em que contém em si todo o imaginário do cinema de ficção científica feito ao longo do século XX, essas referências trucidam a possibilidade da identificação individual delas a partir do momento em que são sobrepostas. 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), Viagem à Lua (1902), Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), Perdidos no Espaço (1968)… A busca por uma visão do infinito, da essência, turva o detalhe rococó, embaralha as formas e cria novos sentidos, sensibilidades e arranjos a partir dessa sobreposição. O filme é o ponto de explosão da virtuose maneirista, um caminho sem volta, da possibilidade de ver além do já visto e, por isso, Missão: Marte é uma prospecção de um possível novo olhar longe de casa, longe da cultura norte americana. (ARTHUSO, 2014)

Se “Missão: Marte” é uma metáfora da “visão total” que enxerga a vida como fenômeno e abstrai a relatividade do tempo e do espaço. Na qual não há mais sentido em apegar-se ao que quer que seja. O filme dá início a busca de um novo olhar para o mundo, tendo o diretor percebido que o próprio mundo mudou. Ou seja, trata-se de um processo de autocrítica, também apontado por Arthuso no trecho a seguir:

(…) o poder dos filmes criados pela geração de De Palma e seu imaginário já se diluíra num sem número de estilhaços de imagens que o cinema dos anos 1990, a televisão, o videoclipe e a internet banalizaram. A busca de alternativas desemboca numa remissão: a atenção para as contradições do mundo e sua representação, os estilhaços de imagens, os fragmentos, um devir alternado entre belo e feio, vida e morte, presença e ausência. Os Estados Unidos de De Palma, a Hollywood e o imaginário de seus primeiros dias como cineasta não existem mais. Para um novo mundo, é preciso um novo olhar. (ARTHUSO, 2014)

A controvérsia de “Missão: Marte” está no paradoxo do esgotamento do próprio maneirismo de De Palma. Não que o diretor venha abandonar seu estilo e referências nas obras seguintes, mas passa a quebrar e ressignificar sua própria lógica autoral de forma a comunicar com o mundo do novo milênio.

REFERÊNCIAS

RIBEIRO, Leonardo. Missão: Marte – Crítica. Disponível em: <https://www.papodecinema.com.br/filmes/missao-marte/critica/&gt;. Acesso em: 06 dez. 2018.

O que é Cinema Maneirista? Arthur Tuoto:  2017. (8 min.) Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=v6LShTWaqJ8&gt;. Acesso em: 04 dez. 2018.

ARTHUSO, Raul. De Palma, exilado: uma viagem do olhar. 2014. Disponível em: <http://revistacinetica.com.br/home/de-palma-exilado-uma-viagem-do-olhar/&gt;. Acesso em: 06 dez. 2018.

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