Pierrot Le Fou

História

Em Pierrot Le Fou, Ferdinand Griffon é um homem de família, desiludido, que acabou de perder seu emprego na televisão. Certa noite, ao voltar de um frustrante encontro com colegas do ramo, percebe que a babá que veio cuidar de seus filhos é uma antiga namorada, Marianne Renoir. Ferdinand decide, então, deixar tudo para trás e ir com ela para o sul da França, em uma jornada que mistura crime, política, bucolismo e decepções amorosas.

Análise

Introdução

Em meados de 1964 o cineasta Jean-Luc Godard anunciou seus planos de realizar um filme baseado no romance “Obsession” de Lionel White. Esse filme viria a ser Pierrot Le Fou (O demônio das onze horas) lançado em 1965. Até o momento, Godard já havia realizado nove longas, sendo reconhecido pela crítica ao material fílmico e por sua técnica de montagem, mais próxima de uma colagem de impressões do que a busca pela coerência narrativa. Trata-se de uma preocupação com a forma que dialoga com um olhar particular sobre a política, sociedade e acontecimentos da época.

O novo filme não seria diferente. Com observações sobre o presente, onde a ironia carrega uma forte inquietação, conjugadas com diversas citações literárias que fazem um jogo entre passado e presente, pode-se dizer que o longa é, definitivamente, voltado para o seu tempo.

Seria fácil definir Pierrot Le Fou como um representante da Nouvelle Vague e do cinema moderno se fosse feita uma análise pragmática, considerando os aspectos de produção como: filmagem em locação; opção pelo som direto; autor realizador e roteirista; roteiros abertos a improvisação. Entretanto, se pegarmos o que sugere Deleuze:

O cinema moderno desenvolve […] novas relações com o pensamento: a supressão de um todo ou de uma totalização das imagens, em favor de um fora que se insere entre elas; a supressão do monólogo interior como todo o filme, em favor de um discurso e de uma visão indiretos livres; a supressão da unidade do homem e do mundo em favor de uma ruptura que nada mais nos deixa que uma crença neste mundo.
( DELEUZE, 1985, p.226)

Por que seria, Pierrot Le Fou, um exemplar do que compreendemos como Cinema Moderno?

Intertextualidade e Contexto

Godard faz o extenso uso da intertextualidade. É um uso consciente de imagens, pinturas, trecho de livros, poemas e citações de autores e títulos. que “ressoam poeticamente na estrutura do filme, entrando sempre em situação, dando sentido às experiências que os personagens estão vivendo.” (COUTINHO, 2007).

O exemplo citado por Coutinho ilustra perfeitamente essa intertextualidade:

[..] para caracterizar como se move a narrativa na terceira parte do filme, quando eles vão executar uma ação complicada, que inclui a morte de vários gângsteres, [..] Os nomes dos autores e os detalhes citados de suas obras acrescentam detalhes concretos, presentes, na sua maior parte, nas imagens correspondentes do filme (um porto, um barco, o que poderia ser um milionário, etc.), e mudam ou confirmam a ação que está acontecendo.
(COUTINHO, 2007, p.189-190)
Trecho (00:46 – 00:48) em que as personagens leem partes de livros dando significados à discussão.

Um outro exemplo seria a associação de propagandas por meio da montagem, que muitas vezes evocam o Pop Art, em contraste com as paisagens naturais do longa. Esse contraste evoca à degradação de uma sociedade que conspira contra a beleza natural. Existe uma certa inércia das pessoas ao mundo a volta o que também é evidenciada na sequência da festa, no início do filme, em que os convidados citam diversas propagandas de produtos.

Também pode-se citar Pieds Nickelés como um exemplo de intertextualidade já que as cenas de ação do filme possuem um caráter cartunesco, como as duas cenas nos postos de gasolina. A ideia seria de que o mundo está se tornando uma espécie de quadrinhos, uma aproximação pela estética.

O uso das referências artísticas para expressar o estado de espírito e pensamentos das personagens se alia às diversas alusões ao contexto da época. Marianne parece pertencer a uma rede de tráfico de armas, as guerras no Vietnã, na Argélia e no Iémen são mencionadas por meio do graffiti nas paredes e notícias de rádio.

Entretanto, novamente, não são meras referências e representam um perigo, sinais de um mundo à beira de uma explosão que Ferdinand procura fugir e que Marianne procura aproveitar. Em outras palavras, a guerra de que esse filme realmente fala é a travada por seus dois personagens principais.

Há um certo fatalismo no relacionamento que se aproxima do “gênero” Noir. As referências vão além visto que Ferdinand é manipulado por Marianne e, no fim, ele decide se vingar da amada, culminando com a morte dos dois. Pode-se fazer uma relação, por exemplo, com o longa Pacto de Sangue (Double Indemnity – 1944) . No filme americano o protagonista, no suspiro final de vida decide revelar as intenções criminosas de sua amada aos seus captores como forma de vingança por não terminarem juntos.

Conclusão

Jean Luc Godard, em Pierrot Le Fou, utiliza da sua montagem e das constantes referências para trazer caos ao filme,o antagonismo entre desordem e graça, violência e paz. Em meio a essa confusão, acaba por traduzir os sentimentos das personagens sem recorrer a uma estética puramente narrativa. E ele vai além, “dá ao cinema as potências próprias do romance. Ele se dá tipos reflexivos como se fossem, estes, intercessores através dos quais Eu é sempre outro” (Deleuze. 1985)

Voltando à pergunta da introdução. Podemos dizer que sim, Pierrot Le Fou é exemplar do cinema moderno por utilizar as técnicas e a linguagem cinematográfica para deslocar o foco da narrativa para o sentido. Ele chama atenção para aquilo que está inserido entre as imagens, um sentimento, reflexão, crítica. Em Godard “há a busca de uma imagem pura, sem vínculos com a história encadeada, uma imagem que não seja a representação. De fato, um tratamento cuidadoso do ver e do ouvir, mais com ver e ouvir do que como desenvolvimento e desenlace da intriga”. (Catálogo CCBB. p120)

Texto produzido para a disciplina de História do Cinema II, sob orientação do professor Pedro Cardoso Aspahan
Centro Universitário UNA
Belo Horizonte – 2017
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