Os Últimos Jedi

Star Wars: Os Últimos Jedi finalmente chegou aos cinemas mas acabou por se envolver em uma polêmica.

Sobre o filme, resumidamente, digo que achei fantástico, talvez um dos meus preferidos da franquia. Não é perfeito, mas o que é, certo? Em pouco tempo sites sobre entretenimento começaram a noticiar o descontentamento dos fãs, petições e etc.

Comecei a reparar que a minha opinião estava divergindo de alguns comentários e tive certeza que algo estava errado quando vi a avaliação do filme no Rotten Tomatoes. Parece que os fãs realmente estão odiando o filme. Sem entender o que esta acontecendo,  enfrentei o mar de informações da internet em busca de respostas e acabei por refletir sobre a relação do filme com o público.

Faço aqui um apanhado dos textos que li com algumas observações. Alerta de Spoilers!


“Isso não vai acontecer como você imagina.” – Luke Skywalker

Pra introduzir a reflexão. Em O despertar da Força J.J. Abrams revitalizou a franquia de filmes mais populares da história, preservando suas qualidades e cativando uma nova geração. O episódio VII preocupou com o que você, o fã de carteirinha, pensa de Star Wars. Ele quis agradar, evocar a nostalgia. E foi muito bom nisso.

Rogue One, o primeiro spin off desse universo, trouxe uma história inesperada mas que todos já sabiam o final, os rebeldes conseguem roubar os planos da Estrela da Morte. Dessa forma, apesar de trazer uma fantástica narrativa, o longa se limita a adicionar mais aquilo que nós já conhecíamos.

Os novos filmes da franquia ainda não tinham entrado em territórios desconhecidos, mas isso mudou completamente com Os Últimos Jedi.


O Rotten Tomatoes e haters

Medir o sucesso de um filme é algo complicado, mas basicamente o processo é um jogo que depende de três métricas.

  1. A opinião da critica: Graças ao  Rotten Tomatoes, é fácil descobrir.  Antes mesmo do lançamento, a avaliação da crítica no site já passava os 90% de aprovação, o que já é um marco;
  2. A opinião dos fãs: Mais uma vez o Rotten Tomatoes tem a resposta (será?) com uma aprovação controversa de 55%;
  3.  Bilheteria: Os últimos Jedi se tornou a 2ª maior bilheteria de estreia da história, com 450 milhões de dólares.

Analisando os dados e, focando especificamente nas métricas 1 e 2, já que o nome Star Wars é o suficiente para garantir uma bilheteria de respeito, podemos dizer que é uma das maiores disparidades entre crítica e público da franquia. Entretanto, o Rotten, por mais que seja interessantíssimo, não é uma fonte confiável para avaliar o sucesso de um filme, ainda mais quando estamos lidando com a geração da internet.

Em primeiro lugar, o público que registra sua opinião no Rotten é um tipo de fã muito específico e, podemos dizer, reacionário ( qualquer semelhança com as pesquisas e posts do facebook relacionadas a política não são meras coincidências). Para contrastar, uma das fontes usadas pela indústria cinematográfica para medir a opinião do público, o CinemaScore, deu a “Os Útimos Jedi” uma avaliação A.

 

Em tempos de qualquer um faz o escândalo que quiser nas redes sociais, os números do Rotten e os haters revelam o quão fácil pode ser, para uma minoria, criar uma narrativa falsa. A de que o fandom de Star Wars considera “Os Últimos Jedi como o pior filme de toda a saga. É a galera do mimimi (anota isso). Os mesmos que criticam o empoderamento feminino que veio com a Rey, e que vão reclamar, por exemplo, do Pantera Negra ter um elenco majoritariamente afrodescendente. O melhor que podemos fazer, é ignorar essa histeria. Petição uma ova!


Os pontos válidos

É claro que existe a parcela, de fãs, legítimos, que realmente não gostaram do filme. E eles tem todo o direito.  O episódio VII termina com algumas questões não respondidas: quem são os pais da Rey; quem é o Snoke? As respostas do episódio VIII foram simples: ninguém e ninguém importante. Nada revelador como “Eu sou seu pai”. Então, é ok que a galera das teorias esteja um pouco frustrada (anota isso 2).

Outro grupo tem dito que filme tem muitas piadas: Os Porgs, pelo amor de Deus! Se você não considera os Ewoks engraçados; os comentários irônicos de Han Solo; as tentativas frustradas de entrar na velocidade da luz no episódio VI; o desespero exagerado do C3PO, estamos precisando rever algumas coisas.

Talvez a maior crítica, e aqui sim ela faz sentido em dividir a base de fãs, seja o abandono da narrativa Skywalker. A morte de Luke Skywalker no filme, a morte real de Carrie Fisher, fazem com que esse episódio seja o último a ter essa família como centro da narrativa. Tudo bem, Kylo Ren não deixa de ser filho da Leia, mas enfim, o que realmente está em jogo aqui é a real mensagem da saga. Amados, Star Wars nunca foi sobre a família Skywalker (anota isso 3).


O fim da dicotomia, do conto de fadas e a polarização de discursos

Outro ponto é o fim da dicotomia luz/lado sombrio da força. Como muitos tem comentado, “Os últimos Jedi” traz o lado cinza. Na verdade, não se trata de uma deturpação da filosofia de George Lucas e sim do seu aprofundamento. Por incrível que pareça, e aqui os pseudointelectuais, principalmente os da internet, piram. O meio termo existe. Talvez, em uma sociedade marcada por discursos cada vez mais polarizados isso seja difícil de compreender (anota isso 4).

A relativização da força, os conflitos e discursos que fazem sentido, tanto de Rey, quanto de Kylo Ren; o motim dentro da própria resistência; os fabricantes de armas; tudo traz uma complexidade incrível e assustam porque nos lembram de histórias da nossa galáxia.  A galáxia muito, muito distante não está mais tão distante (e nunca esteve).

O terror dos fãs é a desconstrução dos seus ídolos e foi isso que aconteceu. Luke Skywalker, de mestre jedi a um homem atormentado por suas decisões. Uma completa quebrar da ingênua ideia dos contos de fadas. Não existe “e viveram felizes para sempre”, a vida é muito mais complicada (anota isso 5).


É revolucionário

Proponho um exercício. Pegue as anotações, pense nelas. Agora vamos parar para analisar o primeiro filme, Star Wars , de 1977, que veio a ser o episódio IV, e desconsidere as sequencias.

Olhe bem para o homem que criou a história: George Lucas, um jovem, um artista promissor, cujo trabalho anterior com ficção científica tinha sido a distopia THX 1138 . Um filme político, carregado de raiva e frustração. Então olhe para Star Wars, um filme infinitamente mais acessível que entretanto aborda a mesma temática. Um grupo de pessoas que luta contra um regime opressivo e fascista.

Cena de THX 1138
Cena de Rogue One

Star Wars, era inovador e radical como qualquer outra produção da Nova Hollywood (inspirada pelo cinema de vanguarda europeu a dialogar direta ou indiretamente com contexto político de sua época). Esse radicalismo acabou por se perder ao longo das sequências, talvez pela simplificação da ideia original ou pelo simples fator blockbuster e a tendencia de se explorar ao máximo o que está dando dinheiro (oi Marvel). Em outras palavras, O Despertar da Força foi uma adaptação cinematográfica dos sentimentos nostálgicos sobre Star Wars em vez de um verdadeiro Star Wars como fora concebido por George Lucas.

Talvez seja por isso que Os Últimos Jedi é uma experiência tão perturbadora. Rian Johnson é político e sem medo de subverter os ícones e signos da franquia. A Primeira Ordem não é apenas um grupo de pessoas cujos uniformes oferecem ótimas oportunidades de cosplay – são fascistas, maus, frios e assustadores. A resistência não é um grupo de heróis perfeitos – são batalhadores, especificamente criados para refletir os medos e frustrações de uma geração (os millennials) que se sente presa e com medo em um mundo onde resistir, muitas vezes, é inútil. A Força não é apenas uma desculpa para levantar pedras – é algo misterioso que não pode ser facilmente explicado nem compreendido.

A resistência não é um grupo de heróis perfeitos

Os Último Jedi é um filme que o jovem George Lucas teria feito. É um verdadeiro Star Wars ao se recusar a ser mais um Star Wars . É político, é radical e não um simples escapismo. Ele não veio atender suas expectativas, veio quebra-las. Ele incomoda e isso doí, e é por isso que é ruim. Nesse momento, Star Wars é território desconhecido e, se não fosse assim esse universo não poderia crescer.


Pra acabar

Se você não entendeu o link preste atenção: Em meio a uma geração que não sabe lidar com aquilo que não conhece. Que não lida bem com suas frustrações e fracassos e está acostumada a ter tudo o que quer, sem esforço (mimada). Era de se esperar que um filme como “Os últimos jedi” que joga isso na cara e, pior, brinca com isso, fosse recebido com bastante resistência. Mas fique tranquilo, ainda há uma luz no fim do túnel, afinal como disse o próprio mestre Yoda, o fracasso é ótimo professor. Ainda bem…

Vale lembrar que o episódio V, O Império Contra-ataca, considerado hoje como o melhor filme da franquia, de início, não teve uma recepção muito positiva por alguns fãs. Entretanto não temos como ter certeza, já que não havia a internet na época. A ideia é que, com o tempo, as opiniões sobre Os Últimos Jedi acabarão por encontrar o meio termo.

Mas e aí, sobre o que é Star Wars? O que realmente importa neste universo? Se não são os Skywalkers ou qual família é mais poderosa ou ainda quem é pai de quem. Se não são nem os Sith ou os Jedi. Se não são os ídolos. Sobre o que é?

Star Wars é sobre crianças massacradas pela realidade do mundo e que, por isso, conhecem as formas simples e inevitáveis para torna-lo melhor. Tudo se resume à sequencia final de Os últimos Jedi:

Crianças que limpam um estábulo.

Quem sonham em ser mais.

A força também está com elas.

E então, ela também está conosco.

o/

O jovem Ezra Bridger, da série animada Star Wars Rebels.

Contém trechos traduzidos das seguintes matérias:

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