A Primeira Guerra no Cinema | Parte 2

Dando continuidade à lista de filmes e séries que abordam a 1ª Guerra Mundial (1 a parte da lista aqui), apresento aqui algumas produções que abordam a frente meridional, especificamente o teatro de operações do Oriente Médio. Á região foi marcada pelos conflitos do Império Otomano (Turcos) contra as forças da Tríplice Entente, também foi palco da maior derrota da Entente, na campanha de Gallipoli.

Curiosamente, as produções são de origem australiana. As mais antigas fazem parte da Australian New Wave, período nas décadas de 1970 e 1980 em que o cinema australiano experimentou um renascimento e sucesso no mundo todo, especialmente nos Estados Unidos. Esse período lançou artistas como Mel Gibson, Nicole Kidman e Sam Neill; além de diretores como George Miller, responsável pelos primeiros Mad Max. Dentre as produções desse período, 3 são relevantes para nós. Gallipoli, Brigada Heroica e o seriado Anzacs.

Com o centenário do conflito, em 2014, diversas produções também ganharam vida, dentre as quais destacaremos duas séries.


Gallipoli (Austrália – 2015)

A minissérie australiana de sete episódios cobre o período da desastrosa campanha na península de Gallipoli, no Império Otomano, hoje Turquia, durante o ano de 1915. Produzida quando o confronto completou 100 anos, a série acompanha a história dos soldados da ANZAC (força conjunta da Austrália e Nova Zelândia), desde o desembarque, no dia 25 de abril, até a retirada no dia 28 de Dezembro. Em termos de produção, a minissérie não fica devendo nada a outras mais famosas, como Band of Brothers e The Pacific.

A campanha foi a tentativa da Tríplice Entente de tomar a península de Gallipoli e garantir controle sobre o estreito de Dardanelos, o que permitiria avançar sobre o território otomano e conquistar a capital Constantinopla. O confronto foi marcado pelo mal planejamento, erros táticos, deficiências logísticas e excesso de confiança por parte dos aliados, em especial dos oficias britânicos que comandaram a missão. Com grandes baixas e pressão por parte da imprensa, o desfecho foi a vitoria dos Otomanos e a retirada dos soldados da Entente. Historiadores sugerem que a campanha foi importante para o fortalecimento da identidade nacional tanto da Austrália, como da Nova Zelândia, que inclusive celebram a data de 25 de abril. Também é sugerido que a vitória das forças Otomanas influenciou o surgimento da Turquia.

A série usa como pivô o jovem, de 17 anos, Thomas. O rapaz, mentido sobre sua idade, se alista junto com o irmão Bevan e são enviados para a batalha. O seriado abusa da violência gráfica para ilustrar o horror da batalha. Por outro lado consegue conferir uma aura humana para os combatentes, dos dois lados, o que é um feito a ser reconhecido. Seria uma saída fácil recorrer ao maniqueísmo vilões e mocinhos. Aqui, os turcos não são pintados como os cruéis inimigos. Os antagonistas da história acabam por ser os oficias ingleses que sintetizam esse excesso de orgulho e apatia com relação a perda de tropas. No fim todos perderem.

Se a série é bem sucedida em contar a história da batalha, por outro lado, acaba por falhar na construção da relação entre Thomas e Bevan. Os criadores optaram por sugerir um triângulo amoroso, dos irmãos com a futura esposa de Bevan. Abusando de flashbacks, vemos o desenrolar desse conflito que nunca terá resolução. Por outro lado, o roteiro e a atuação das personagens consegue mostrar as marcas e mudanças emocionais que soldados adquirem ao longo da batalha.

Disponível em https://vimeopro.com/user1783024/gallipoli

 


Deadline Gallipoli (Austrália – 2015)

Também produzida no contexto dos 100 anos da Campanha de Gallipoli, a minissérie Deadline Gallipoli apresenta uma outra perspectiva sobre a atuação dos soldados australianos no confronto. O foco aqui é o trabalho dos correspondentes de guerra. Não que o papel desses jornalistas não tenha sido abordado na série citada acima. Isso é feito de forma protocolar marcando os fatos históricos. Em Deadline esse profissionais ganham status de protagonistas que, paralela a batalha nas trincheiras, travam uma batalha contra a censura do exército britânico e tentam levar a verdade sobre o desastroso confronto a tona.

A série também se dedica a mostrar as articulações e decisões políticas que circundaram o confronto e mostra como o jornalismo é pode influenciar, tanto para o bem, quanto para o mal, a percepção sobre conflitos.

Nesse caso, as personagens dos jornalistas ganham mais profundidade e aqui destaco a escolha acertada do elenco. Também destaco o ritmo da série, os dois capítulos de uma hora e meia, passam rápido e comprimem de forma inteligente os 9 meses em que a história se desenrola.

Com relação a primeira, são séries complementares. E ambas valem ser vistas por apresentar essa mudança de perspectiva sobre a mesma história. Também é um exercício interessa comparar as escolhas de direção com relação aos personagens que se repetem e as diferenças quanto a cenários e figurino.

 


Gallipoli (Austrália – 1981)

Dirigido por Peter Weir, que viria a dirigir “Sociedade dos Poetas Mortos” e o “Show de Truman”, Gallipoli também conta a história das tropas australianas na primeira guerra. O filme foi um marco nos anos 80, fazendo parte do renascimento do cinema australiano e é considerado um clássico do cinema mundial.

A trama acompanha a história de Archy e Frank, jovens atletas que decidem se alistar. O roteiro passa por diversos momentos também retratados nas duas séries, em especial a chamada Batalha do Nek, que aconteceu em 7 de Agosto de 1915. O filme, entretanto, não se propõe a fornecer um contexto completo dos eventos.

A produção adota uma estética árida, principalmente por meio da fotografia. A trilha sonora opta por uma linha sintetizada, enquanto espera-se o uso de orquestra, mais comum nesse tipo de filme. Em termos gerais, consegue passar o contraste entre vida e morte que acompanha a guerra, entretanto, parece não envelhecer bem, o que pode ser algo relacionado a qualidade das cópias disponíveis. O fim do filme, abrupto, pode causar estranhamento, mas é condizente com o tom da narrativa, na guerra, a morte é abrupta.

Gallipoli entra nessa lista por sua relevância histórica, mas se o objetivo é se situar sobre a progressão histórica do filme, as séries discutidas anteriormente são mais eficientes.


Brigada Heroica (The Lighthorsemen | Austrália – 1987)

O último filme da lista foi uma surpresa. The Lighthorsemen conta a história de uma unidade da cavalaria Australiana e sua atuação nas campanhas no Sinai e na Palestina, em especial na Batalha de Bersebá. Diferentemente de Gallipoli, Bersebá foi uma vitória das forças aliadas.

A produção não foge dos clichês dos filmes de guerra. Um jovem que se alista, seus colegas de batalhão se tornam amigos e um relacionamento amoroso surge em meio aos conflitos. O destaque vai para uma fotografia incrível e para a montagem, em especial nas cenas de ação.

Dirigido por Simon Wincer (Free Willy 1993), o filme acompanha a história de 4 cavaleiros das forças australianas. Quando um dos rapazes é ferido e morre, Dave, recém efetivado, se junta ao grupo. Ele é confrontado pelos dilemas morais da guerra o que pode colocar a vida de seus colegas em risco.

O modus operandi da cavalaria australiana e as estratégias adotadas pelos comandantes são colocadas em cena de forma impecável. Centenas de cavalos e cavaleiros, velozmente, rumo as linhas inimigas. O roteiro articula a narrativa de forma a criar expectativa para o ato final do filme, que é de fato a batalha.

Considero o filme como uma surpresa pelo fato de ser uma grande produção, com uma narrativa atual, “envelheceu bem”, e ainda sim passa despercebido na maioria das listas sobre filmes de guerra.

Para encerrar, uma nota interessante. Diversas cenas de The Lighthorsemen foram reutilizadas em um episódio da série “As aventuras do Jovem Indiana Jones”. Ainda iremos abordar esse produção nessa jornada.

O filme está disponível no YouTube e em outras plataformas de streaming.


A Primeira Guerra no Cinema

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